Uma vida de exílio
Uma vida de exílio
Geraldo Pedrosa de Araújo Dias nasceu em 12 de setembro de 1935, em João Pessoa, na Paraíba. Filho do médico José Vandregisilo e Maria Eugênia, tornou-se ícone contra a ditadura militar em 1968 por compor canções militantes.
Desde criança, ele já se interessava por música, participando de apresentações na escola onde estudava e no programa de calouros da rádio Tabajara. Geraldo era apaixonado por rádio, principal veículo de comunicação nos anos 30 e 40.
Mudou-se para o Rio de Janeiro com a família em 1951. O lugar contribuiu para a vida artística do músico. No Rio de Janeiro, conheceu várias pessoas ligadas ao meio artístico, como o compositor Valdemar Henrique, Baden Powell e Luís Eça.
Participou representando a Paraíba, em sua primeira experiência como artista, no programa de auditório apresentado por César de Alencar, um dos mais famosos animadores dos anos 50. Geraldo porém não foi classificado.
Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade do Brasil no Rio de Janeiro por insistência da mãe. Na faculdade, passou a se interessar por política estudantil. Geraldo foi membro do CPCs (Centros Populares de Cultura) da UNE (União Nacional dos Estudantes). Durante esse período, conheceu Carlos Lyra, seu primeiro parceiro a produzir música como “Quem Quiser Encontrar o Amor” e “Aruanda”, e João Gilberto, com quem se apresentou em vários programas.
O advogado pendurou o diploma e foi viver a vida de músico tão sonhada. Iniciou sua carreira com o nome artístico de Carlos Dias, homenagem aos cantores Carlos Galhardos e Carlos José. Depois, passou a usar o codinome Geraldo Vandré em homenagem ao pai, José Vandregisilo.
Geraldo Vandré foi influenciado pela Bossa Nova e pelo Jazz, o que estimulou a introduzir elementos musicais diferenciados em suas músicas.
Em 1964, gravou seu primeiro LP, “Geraldo Vandré”, com as músicas “Fica Mal com Deus” e “Menino das Laranjas” (com Theo de Barros), entre outras. Participou de muitos festivais, defendendo músicas e compondo. Em uma de suas participações, venceu em primeiro lugar com a música “Porta-Estandarte”, sua em parceria com Fernando Lona, defendida por Tuca e Airto Moreira.
Passou a integrar um grupo que veio a se chamar Quarteto Novo e contava com Hermeto Pascoal, Theo de Barros, Heraldo do Monte e Airto Moreira.
Vandré teve sua música “Disparada” empatada em primeiro lugar no Festival da TV Record de 1966 com “A Banda”, de Chico Buarque. “A Banda” ganhou no júri, mas o prêmio foi dividido por determinação do próprio Chico.
Em setembro de 68, a música “Caminhando (Pra Não Dizer que Não Falei das Flores)” conquistou o segundo lugar na fase nacional do 3° Festival Internacional da Canção, promovida pela TV Globo, perdendo para “Sabiá”, de Chico Buarque e Tom Jobim. Apesar do público sustentar “Caminhando” como vencedora e vaiar a decisão do júri, Geraldo Vandré não ficou calado e defendeu os adversários, “Antônio Carlos Jobim e Chico Buarque de Hollanda merecem nosso respeito. (…) Pra vocês que continuam pensando que me apóiam vaiando… (…) A vida não se resume a festivais”, disse, enquanto a multidão acenava com lenços brancos.
Vandré sumiu dos palcos pouco depois, com o acirramento da ditadura e a promulgação do Ato Institucional 5 (AI5), no dia 13 de dezembro de 1968. “Pra não dizer que não falei das flores” foi proibida e o cantor perseguido pelos militares. Segundo o compositor Geraldo Azevedo (integrante do Quarteto Novo), o grupo ia se apresentar em Brasília, no dia que foi decretado o AI5.
Geraldo Vandré permaneceu escondido por amigos até fugir disfarçado e com passaporte falso no carnaval de 1969. Com o exílio, Vandré foi morar no Chile, França, Argélia, Alemanha, Áustria, Grécia e Bulgária. Nos quatro anos que ficou fora do Brasil, compôs músicas e lançou os dois últimos LPs de sua carreira, totalizando cinco, além de formar o grupo Quinteto Violado e ganhar no festival de música, no Peru.
O pai da resistência à ditadura tornou-se uma espécie de “mito” para o Brasil, por ter ficado sem fazer shows no Brasil, desde seu exílio. O retorno oficial do compositor aconteceu no dia 21 de agosto de 1973, em Brasília.
Na chegada, declarou ao Jornal Nacional: “Quero agora só fazer canções de amor e paz”. Sua chegada ao Brasil, na verdade, teria ocorrido em julho de 1973, com a condição de dar a seguinte declaração ao JN: “Nunca fui preso, torturado, essas coisas que dizem por aí”, afirmou à revista VIP Exame, em março de 1995.
Nessa época, enfrentou várias crises de depressão. Foi o único artista do período que não voltou a se apresentar em palcos brasileiros. Apresentou-se no Paraguai em 1982 e 1985, na fronteira com o Brasil, rompendo mais de uma década de silêncio. E para quem sentiu saudades do cantor, nos anos 90 foram lançadas coletâneas com obras suas. Vandré passou apenas a compor canções e, entre elas, fez “Fabiana” em homenagem à FAB (Força Aérea Brasileira), paixão desde criança.
Hoje ele é o único advogado na sua cidade, apaixonado por carros e aviões. Leva uma vida ocupada e simples. “Nunca fui um compositor de protesto. Sou um músico de formação erudita. Ouço Villa-Lobos, Wagner. (…) A minha relação com os militares não foi política e nunca vai ser. Caminhando era um aviso: ‘Olha gente, desse jeito não dá mais’. (…) Ouço só rádio, a Cultura AM, que toca música clássica. Tenho um aparelho de TV branco e preto em casa, mas raramente ligo”, disse Vandré aos seus 65 anos, em uma entrevista a CliqueMusic, 30 anos após o exilo.
Seu último projeto como artista será gravar um CD (sem previsão) no qual foi convidado por Zé Ramalho.
